Congresso espanhol rejeita decretos sobre moradia e aumenta pressão sobre Sánchez
Os deputados espanhóis rejeitaram, nesta sexta-feira (2), os dois decretos sobre moradia propostos pelo governo de Pedro Sánchez, impondo uma dura derrota ao Executivo, enquanto manifestantes pedem a intensificação dos protestos.
"Vergonha, vergonha!", gritaram milhares de pessoas reunidas ao redor do Congresso ao conhecer o resultado, entre apelos à "greve geral".
O primeiro decreto, aprovado pelo governo de esquerda na terça-feira para enfrentar a crise habitacional, foi derrubado por 178 votos contra e 172 a favor. O segundo foi rejeitado minutos depois, por 184 votos contra e 166 a favor.
Em uma Câmara fragmentada, na qual o governo não tem maioria, tampouco surtiu efeito a intervenção de última hora de Sánchez, que pediu aos deputados que fossem "corajosos".
"Peço que estejam à altura do que os cidadãos estão nos pedindo", declarou.
Milhares de manifestantes vindos da praça Puerta del Sol, onde há mais de uma semana foi instalado um acampamento para cobrar soluções, acompanharam a sessão do lado de fora.
"Isso não pode continuar assim", disse à AFP Miél Díaz, professor de 23 anos, que afirma não conseguir sair da casa da família devido aos altos aluguéis.
"A maioria das pessoas deste país tem um problema com moradia ou conhece alguém que tem", acrescentou.
- Votação difícil -
O governo aprovou os decretos em meio à onda de protestos desencadeada pelo despejo, na semana passada, de Maricarmen Abascal, uma moradora de Madri de 87 anos, obrigada a deixar o apartamento onde vivia havia sete décadas.
Os textos incluíam a renovação automática dos contratos de aluguel no vencimento e medidas para restringir os despejos de inquilinos vulneráveis. Também miravam os chamados "fundos abutres", que compram imóveis a preços baixos para maximizar sua rentabilidade.
"Esta não é uma sessão qualquer. Milhares de pessoas estão acompanhando a votação desta Câmara", advertiu a ministra da Habitação, Isabel Rodríguez.
As chances de aprovação já haviam diminuído após os separatistas catalães do Junts anunciarem na noite de quinta-feira que votariam contra, somando-se à direita e à extrema direita. Seu apoio, ou uma abstenção, era necessário para aprovar as medidas.
- Eleições antecipadas? -
Após a rejeição dos decretos, a oposição intensificou os pedidos para que Sánchez antecipe as eleições legislativas, previstas para 2027.
"Quanto antes forem as eleições, melhor, mas que sejam transparentes, livres e sem trapaças", declarou o líder do partido de extrema direita Vox, Santiago Abascal.
Integrantes do governo não deram sinais sobre essa possibilidade. "Conversei com ele e minha discrição será absoluta sobre esta questão", disse a vice-presidente do governo, Yolanda Díaz, à rádio Cadena Ser.
A falta de moradia acessível é um dos principais problemas sociais da Espanha. Os protestos ganharam força após o despejo de Maricarmen Abascal, cujo apartamento foi adquirido por uma empresa de investimento que pretendia aumentar o aluguel em 275%.
O caso provocou acampamentos em Madri e outras cidades e transformou a idosa em símbolo da crise habitacional.
Segundo o Banco da Espanha, o país, com cerca de 50 milhões de habitantes, tem um déficit de aproximadamente 700.000 moradias.
E.Smith--IP